14/08 – O auditório do Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC), em Boa Viagem, recebeu nesta quarta-feira (12) uma das vozes mais marcantes da imprensa fluminense. O jornalista Astrogildo Milagres foi o convidado do Fórum da Memória do Jornalismo Fluminense, iniciativa voltada à preservação das histórias e experiências de profissionais que ajudaram a construir o jornalismo do Estado do Rio de Janeiro.
Com entrada franca, o encontro reuniu jornalistas, amigos e convidados para ouvir o depoimento de Astrogildo, que percorreu décadas de sua trajetória profissional e pessoal. O objetivo do Fórum é registrar esses relatos para a produção de um livro sobre a memória do jornalismo fluminense.
Ao iniciar seu depoimento, Astrogildo destacou a forte ligação que mantém com Niterói. Ele contou que chegou à região ainda adolescente, depois de sair do interior de Minas Gerais, Além Paraíba e que a cidade passou a fazer parte de sua história.
A relação começou de maneira inusitada. Ainda muito jovem, ele viajou de trem para o Rio de Janeiro com amigos, inicialmente sonhando em seguir carreira no futebol. Entre as experiências daquele período, chegou a conviver com jovens que posteriormente se tornariam grandes nomes do futebol brasileiro, como Zico, Geraldo “assobiador”, Roberto “Dinamite” entre outros.
Depois de conhecer o Rio, Astrogildo acabou escolhendo Niterói como lugar para morar. A cidade, segundo seu próprio relato, permaneceu como uma referência afetiva ao longo de sua vida.
A carreira jornalística de Astrogildo nasceu ligada ao interior. Em seu depoimento, ele lembrou que começou trabalhando em jornais e posteriormente construiu uma trajetória marcada pela cobertura das cidades do interior do Estado do Rio de Janeiro.
Um dos momentos decisivos ocorreu em 1980, quando lançou a primeira edição de seu próprio jornal, em Santo Antônio de Pádua, o “ Folha Paduana”. A publicação nasceu da percepção de que a comunidade precisava de um veículo de comunicação próprio.
O jornal cresceu e passou a alcançar diferentes municípios da região. Astrogildo contou que ampliou a atuação para cidades como Miracema, Itaperuna e São Fidélis, criando uma rede de cobertura regional.
A publicação posteriormente adotou o nome A Folha, marca que permanece associada à trajetória do jornalista.
Ao longo do depoimento, Astrogildo relatou episódios em que o exercício do jornalismo significou enfrentar interesses políticos e econômicos poderosos.
Ele contou que, ao denunciar problemas envolvendo serviços públicos e autoridades, sofreu processos, ameaças e pressões para interromper determinadas coberturas. Em determinado momento, anunciantes chegaram a pedir que seus anúncios continuassem sendo pagos, mas sem que suas marcas fossem publicadas no jornal, numa tentativa de evitar conflitos com os grupos que estavam sendo criticados.
A experiência reforçou uma das características que Astrogildo atribui à sua carreira: a disposição de dar espaço aos personagens mais vulneráveis das histórias que cobria.
A trajetória também levou Astrogildo a trabalhar em veículos de maior alcance. Em seu depoimento, ele mencionou experiências no “O Fluminense”, na Rádio Jornal do Brasil, no Jornal dos Sports e na Última Hora e na televisão, quando foi convocado a montar e treinar a primeira equipe de reportagem de uma afiliada da Rede Globo, a TV Serra+Mar, atual Intertv, sediada em Nova Friburgo se tornando o Chefe de Reportagem.
No “O Fluminense”, atuou na cobertura do interior do Estado e participou de um projeto de fortalecimento da presença do jornal em diferentes regiões. Posteriormente, passou por outros veículos, ampliando sua experiência profissional.
O jornalista também recordou nomes importantes com quem conviveu e trabalhou ao longo da carreira, ressaltando a importância dos profissionais como Maurício Hills, Oswaldo Meneskc, Mário Souza, entre outros que, segundo ele, formaram uma verdadeira escola prática de jornalismo no Estado.
Entre as histórias contadas no Fórum, uma das mais marcantes foi a lembrança de um episódio envolvendo a publicação de uma informação equivocada sobre a morte do ex-governador Carlos Lacerda.
Astrogildo relatou que, trabalhando no interior, na cidade de Campos dos Goytacazes, no Jornal “A Cidade”, recebeu informações de uma fonte radiofônica e decidiu preparar uma manchete. A notícia acabou sendo publicada antes da confirmação definitiva, provocando uma reação imediata dentro da redação. Mais tarde, porém, a informação sobre o falecimento acabou sendo confirmada.
O episódio, contado com bom humor e autocrítica, revelou também um período em que a produção jornalística dependia de rádio, telefone, gravador, máquinas de escrever, arquivos físicos e gráficas tipográficas com a “revolucionária” linotipo.
Ao falar sobre os anos de trabalho, Astrogildo foi enfático ao definir sua relação com o jornalismo. Para ele, o jornal não representa apenas uma atividade profissional, mas uma missão.
Mesmo diante das dificuldades financeiras, processos judiciais e mudanças tecnológicas, ele manteve o compromisso com a circulação do jornal no interior. Nos últimos anos, após o o diagnóstico de um glaucoma, que o deixou com a visão fortemente comprometida, a continuidade do trabalho passou a contar ainda mais com o apoio de sua companheira, Eva de Lourdes, que assumiu tarefas de revisão, distribuição e logística da publicação.
A declaração que resume esse sentimento surgiu quando Astrogildo falou diretamente sobre o futuro da publicação: “O jornalismo pra mim, é tudo!.”
O depoimento de Astrogildo Milagres faz parte de um projeto maior de preservação da memória dos profissionais da imprensa fluminense. A proposta do Fórum é registrar as histórias de jornalistas com longa trajetória profissional e transformar esses relatos em uma publicação.
A iniciativa é do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro, com apoio da Secretaria Municipal das Culturas de Niterói e parceria do MAC.
Mais do que uma homenagem, o encontro mostrou que preservar a memória do jornalismo significa também preservar as histórias de quem esteve nas ruas, nas redações e nas cidades, enfrentando dificuldades para manter a informação circulando.
Em Niterói, cidade que Astrogildo considera parte importante de sua trajetória, o jornalista deixou um depoimento marcado por lembranças, emoção, histórias de bastidores e, principalmente, pela defesa de uma ideia que atravessou toda a sua carreira.






